Saudações.
Desta vez vou falar do personagem Jiraiya e suas várias versões na Cultura Pop Japonesa. Não pretendo pegar todos os aspectos, mas sim fazer algumas reflexões.
Em minhas andanças pela internet, me deparei com uma discussão. Era uma pessoa que não sabia o que significava a expressão "virado no Jiraiya". Teve um que achou que vinha do personagem de mesmo nome das séries NARUTO. Porém logo veio outra pessoa dizendo que vem do Jiraiya, o Incrível Ninja, dos anos 1980, que seria o Jiraiya "raiz". Nessa eu pensei: "espere um momento, tem alguma coisa errada aqui"...
As Origens do Jiraiya
Jiraiya é um personagem fictício de contos literários populares no fim da Era Edo. A primeira versão documentada é a de 1806, 自来也説話 (Jiraiya Monogatari, algo como "O Conto de Jiraiya"), de autoria de Onitake Kanwatei e ele era um ladrão do tipo Robin Hood, que roubava dos ricos para dar aos pobres, usando a feitiçaria do Sapo. E em cada casa assaltada, ele deixava seu nome escrito, 自来也, que também significava algo como "Eu estive aqui" (自 Ji, mizukara "eu, próprio", 来 Rai, kitaru "vir" e 也 Ya, uma das pronúncias de "nari", que indica o fim de uma frase afirmativa).
Seu verdadeiro nome seria Hiroyuki Shuuma Ogata, um Ronin do Clã Miyoshi, cujo objetivo era ajudar o guerreiro Tomokichiro Isami a vingar a morte de seu pai, assassinado por Gundayuu Rokuyaon, que se tornou imortal ao usar uma arte proibida.
Em 1839 surgiria uma série de histórias chamada 児雷也豪傑譚 (Jiraiya Gouketsu Monogatari, "A História do Bravo Jiraiya"), por Egao Mizugaki. O kanji foi mudado para 児雷也 e o nome verdadeiro continuou sendo Hiroyuki Shuuma Ogata. Mas desta vez ele seria o último descendente de um clã nobre da província de Echigo, com muitos feitos heroicos e que aprendeu a arte de controlar sapos ou até mesmo se transformar em um.
Nessa versão figuram novos personagens, como Tsunade, uma mulher que controla lesmas e assume a forma de uma, e o rival do herói, Orochimaru, que faz o mesmo com serpentes. Nisso se forma uma relação de forças e fraquezas entre os três, sendo que o Sapo engole a Lesma, que por sua vez derrete a Serpente (de acordo com a crença popular), e esta come o Sapo. Isso foi a base para as outras versões do personagem nos anos seguintes.
Jiraiya e Tokusatsu
"Mas eu estou falando que o Jiraiya dos anos 1980 é o raiz dentro do gênero Tokusatsu!"
Tudo bem. Mas saiba antes que já havia um filme do Jiraiya usando efeitos especiais em 1921. Chamava-se 豪傑児雷也 (Gouketsu Jiraiya, "Jiraiya, o Bravo"), em preto-e-branco, mudo, dirigido por Shozo Makino, considerado o "Pai do Cinema Japonês". A história era baseada na versão de 1839, não só com o Jiraiya, mas também com Tsunade e Orochimaru. Os efeitos eram rudimentares, como quando o herói desaparecia, parando a câmera, tirando o ator de cena, para então continuar a filmar. O sapo em que Jiraiya se transformava era um ator fantasiado e havia marionetes da lesma e da serpente. Mesmo assim este filme é considerado o primeiro do Japão a usar efeitos especiais. Sendo assim, a grosso modo, teria sido o primeiro filme de Tokusatsu.
E o Incrível Ninja não é raiz nem mesmo na Toei, já que em 1966 havia um filme da empresa chamado 怪竜大決戦 (Kairyu Daikessen, "Batalha Decisiva com o Dragão Monstruoso"), exibido internacionalmente como The Magic Serpent. O personagem principal era Jiraiya, baseado no personagem clássico, mas seu verdadeiro nome seria "Ikazuchimaru Ogata" ao invés de "Hiroyuki". É baseado na segunda versão, inclusive com a Tsunade e o Orochimaru, com a diferença que Tsunade usa a arte da Aranha ao invés da Lesma. E a missão de Jiraiya era a de vingar a morte de seus pais pelas mãos de um vassalo traidor, Daijou Yuuki, que tramou um golpe para tomar a terra de Oumi com Orochimaru. Esse é considerado o primeiro filme da empresa com monstros gigantes, cujos adereços foram reaproveitados depois no seriado Kamen no Ninja Aka Kage, de 1967.
Não é exatamente Tokusatsu, mas tem um pouco a ver. Em 1971 foi feita uma peça de teatro, 快傑児雷也 (Kaiketsu Jiraiya, O Herói Jiraiya) também baseada no Jiraiya de 1839, estrelada pelo ator e cantor Kazuo Funaki, em comemoração aos seus 15 anos de atividade no ramo. Funaki gostava de heróis de Tokusatsu e chamou o divino Chumei Watanabe, o maior expoente do ramo, para compor a canção-tema. E é óbvio que ficou boa, cantando os feitos do herói, com sua amada Tsunade e enfrentando Orochimaru, com letra do próprio Funaki.
O Jiraiya "Raiz"?
Com isso tudo, vemos que o Jiraiya de O Incrível Ninja não é o "Jiraiya raiz" como muita gente por aqui pensa. Ele é na verdade uma das ramificações e a menos fiel de todas, diga-se de passagem. O Incrível Ninja tem uma espada laser, uma pistola de raios, um carro a prova de explosão cheio de parafernálias tecnológicas, uma armadura feita com material espacial e até mesmo um robô gigante (OK, um Majin, mas é análogo), coisas impensáveis para a imagem que os japoneses tinham do Jiraiya clássico, ou até de um Ninja, mesmo para os padrões dos anos 1980.
E O Incrível Ninja não tem nenhum elemento dos originais, visto que nem a Kei e nem a Reiha ou mesmo a Yumeha usam a Arte Ninja da Lesma. E no Clã Youma não tem ninguém que usa a Arte Ninja da Serpente (embora tenha uma que usa a da Aranha). Curiosamente a série tem vários elementos que remontam ao filme de 1966 da Toei, embora não se saiba se isso foi intencional. Mas essa é uma dúvida que talvez seja respondida futuramente.
Até mesmo o Ninja Black Jiraiya, de Kakuranger, consegue ser um pouquinho mais fiel por ter um robô (ou Deus Protetor) em forma de sapo, além de ser o último descendente do Jiraiya clássico de 1839. Isso sem falar que ele é interpretado por Kane Kosugi, o filho de Sho Kosugi, cujos filmes influenciaram em muito a imagem do Ninja no ocidente, nos anos 1980. Várias obras se inspiraram nesses filmes, como os jogos Shinobi, Ninja Gaiden e Mortal Kombat, assim como quadrinhos como as Tartarugas Ninja. E personagens como Snake Eyes e Storm Shadow em G. I. Joe, assim como toda a visão de mundo ao redor deles. Ou seja, Kane tem ligação com a "raiz" do Ninja Americano, sendo que ele também participou de um desses filmes ainda criança, dando uma sova em um adulto maior que ele.
Voltando à conversa do começo do texto, a grande ironia é que o Jiraiya de NARUTO é bem mais fiel ao original do que o dos anos 1980. Afinal em NARUTO figuram uma Tsunade e um Orochimaru, com seus respectivos animais representativos, sendo que eles são os Três Ninjas Lendários da série. E ele mesmo usa a Arte do Sapo.
Fora isso, existem muitos outros "Jiraiya" em várias obras de Anime, Tokusatsu ou em Games como 天外魔境 ZIRIA (Tengai Makyo, com a romanização de Far East of Eden), em que Tsunade e Orochimaru também aparecem. Aqui no Brasil foi lançado um jogo para Neo Geo dessa série, mas de luta, o Kabuki Klash. Nesse o "Jiraiya" foi grafado "Ziria".
Bom = Raiz?
Nisso vale uma reflexão: para ser bom tem que ser necessariamente "raiz"?
Jiraiya, o Incrível Ninja me soa como um estrondoso "NÃO".
Mesmo não sendo fiel ao original, a série consegue ser muito boa, sim. Ela tem personagens simpáticos, a começar pelo herói, Touha, que não é um herói "perfeito" e sempre que pode, dá umas escapadas do treinamento para poder cochilar. Isso sem falar que Touha é presunçoso às vezes, confiando demais em sua própria força, o que lhe rende derrotas memoráveis. Ou seja, ele também não é invencível. E comete esse tipo de erro até mesmo em sua reaparição em Ninninger.
Mas Touha tem bom coração e faz de tudo para conseguir um pouco que seja de dinheiro para sustentar sua família. Ele ajuda quem precisa sem hesitar, enfrentando seus inimigos sem nunca desistir e parte para a revanche quando é derrotado. O herói vai crescendo e se desenvolvendo ao longo da série, sendo que no final ele já está bem diferente do começo.
Ou seja, Touha é humano, falível, que tem seus defeitos, mas também suas virtudes. Isso que faz com que se tenha uma sensação de proximidade com ele. E o carisma de Takumi Tsutsui com certeza contribui para isso. O tipo de herói que teria de tudo para ser popular entre os brasileiros e talvez por isso ele seja tão lembrado por aqui, ao lado d'O Fantástico Jaspion.
A série também tem sucesso em criar um mundo que tem sua própria cultura. Como o conceito dos Ninjas Mundiais (ou Ninjas do Império, como queira), em que a Arte Ninja teria se espalhado para vários países, se adaptando às culturas locais, absorvendo suas características e com isso criando novos estilos. Ou seja, pouquíssimos deles usavam uma Arte Ninja "raiz".
Isso dava bastante liberdade aos criadores e havia grande variedade nos personagens que eram armados não só com as tradicionais espadas, shurikens e kusarigamas, como também pistolas, chicotes, lanças e até mesmo lançadores de foguetes. O Clã Youma contava ainda com equipamentos e veículos de uso militar em alguns episódios. E cada personagem era único, com sua própria característica, seus próprios poderes e habilidades, altamente marcante. Isso rendia lutas memoráveis, cheias de ação.
Outro ponto a se notar é a trilha sonora. As músicas de fundo tinham uma ótima variedade, com temas heroicos, solenes ou emocionais. E como não se empolgar ao ouvir canções como Jiraiya Sanjou! ou Hikaru Kaze? Se sentir criança com Kagayake! Jiraiya, cantada pelo próprio ator, mas que não costuma fazer isso nem em eventos? Ou se emocionar com Sora kara Hibiku Koe? Isso sem falar em várias outras canções.
E acima de tudo, a série não tinha só ação, como bastante Humanidade. As interações de Touha com Kei e Manabu eram bem verossímeis, com situações comuns a quem tem irmãos, ora se dando bem, ora dando conselhos, ora brigando. Masaaki Hatsumi fez uma sugestão bem acertada de colocar elementos de drama familiar na série, com o intento original de abrandar o clima, já que ele, como o Grão-Mestre do estilo Togakure, sabia que a Arte Ninja é uma forma de matar pessoas, algo que seria violento demais para um programa voltado a crianças.
Jiraiya, O Incrível Ninja consegue ser uma ótima série mesmo não tendo quase nenhum elemento do Jiraiya original, sem ficar preso a conceitos preestabelecidos. Foi feito inclusive se libertando da imagem tradicional do Ninja, mesmo tendo consultoria da um Mestre na arte. Então não vejo muito sentido em dizer que para uma coisa ser boa ela tem que ser "raiz". Talvez para questões históricas e documentais, mas não para determinar a qualidade do trabalho.
Então ficam duas perguntas:
É preciso ser "raiz" para se ser bom?
Se acha que sim, aquilo que você gosta é realmente "raiz"?
Pense nisso...
Mas para quem quiser ver o Jiraiya "raiz" mesmo, uma boa notícia. O filme de 1921 já caiu em domínio público e pode ser facilmente encontrável. Inclusive com legendas, embora sem a narração que era feita por uma pessoa dentro do cinema. Só não vale dizer que está "datado" ou que os efeitos são "ruins", pois a equipe fez o que foi possível na época, em que não se tinha tantos recursos e tudo ainda era "mato" precisando ser desbravado. Mesmo assim, os figurinos e os cenários são suntuosos.
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