Desta vez vou falar sobre o episódio 33 do seriado O Regresso de Ultraman, que foi disponibilizado por tempo limitado no Canal Oficial da Tsuburaya e exibido no Brasil nos anos 1970 e 1980 como "O Homem do Espaço". Abaixo segue um resumo e impressões.
Roteiro: Shozo Uehara
Direção: Shohei Tojo
Obs.: contém informações sobre os rumos da trama.
Nos arredores de Tóquio, no meio de uma forte chuva, um menino (Hideya Nihei) foge do monstro Muruchi. Nisso, ele é salvo por um Alien Mates (Kenjiro Uemura), que sela o monstro no subterrâneo usando seus poderes telecinéticos e pega o menino desacordado em seus braços.
Um ano depois. O menino está cavando um buraco na terra e é importunado por estudantes locais que o acusam de ser um "Homem do Espaço". Eles vão ao casebre abandonado que o menino usa como abrigo para procurar por provas e um deles é erguido ao ar por uma força misteriosa até ser derrubado no chão. Com medo, todos fogem. Os estudantes voltam para se vingar e atormentam o menino de todas as formas possíveis, mas Hideki Go (Jiro Dan) intervém.
O nome do menino é Ryo Sakuma, que veio de Hokkaido em busca de seu pai. E atualmente vive com um ancião chamado Juro Kanayama, que na verdade é o Alien Mates que o salvou. Devido aos boatos de ser um alienígena, o menino é ostracizado pelos habitantes da cidade, que inclusive se recusam a vender pão para ele, mesmo saindo na chuva com um guarda-chuva quebrado.
Go recebe do Capitão Ibuki (Jun Negami) a missão de investigar e proteger Ryo. Ao visitar o casebre, se encontra com Kanayama que explica que veio para estudar o clima e a geografia do planeta Terra e acabou encontrando Ryo, que estava à beira da morte devido ao frio e ao cansaço. O alienígena decidiu ficar na Terra para cuidar do menino e enterrou sua nave no subterrâneo com seus poderes telecinéticos. Mas o ar poluído do planeta passou a minar sua saúde, debilitando-o de forma que não pôde recuperar a nave para retornar ao seu planeta. Era por isso que Ryo estava cavando um buraco.
Go então decide ajudá-lo, mas uma multidão enfurecida vem para linchar Ryo, movida pelo medo de ele ser um homem do espaço...
A Feiura Humana
Este é um dos episódios mais fortes e de maior impacto das séries Ultra. Ele retrata de forma crua a feiura humana, o seu pior lado. Aquele que tem medo do desconhecido, do que é diferente. E que se deixa levar pelo pânico e pela histeria em massa.
As cenas de bullying são fortes e revoltantes. Além de serem um reflexo da época, serve para mostrar até onde o ser humano pode chegar ao constatar que alguém é diferente e arrogando para si o direito de fazer o que quiser com ele.
A Feiura Humana
Este é um dos episódios mais fortes e de maior impacto das séries Ultra. Ele retrata de forma crua a feiura humana, o seu pior lado. Aquele que tem medo do desconhecido, do que é diferente. E que se deixa levar pelo pânico e pela histeria em massa.
As cenas de bullying são fortes e revoltantes. Além de serem um reflexo da época, serve para mostrar até onde o ser humano pode chegar ao constatar que alguém é diferente e arrogando para si o direito de fazer o que quiser com ele.
Esse ódio é voltado a Ryo, que é um forasteiro e suspeito de ser um alienígena. Mas é mostrado que, apesar de um tanto revoltado com sua situação e desesperançoso com a Terra, na verdade é um bom menino que agradece de coração a quem o ajuda e sabe sorrir.
Outro elemento apresentado é a descrença com as instituições. Ao ver que Go estava ajudando o menino, a população chamou a polícia local, que não tinha competência para lidar com o assunto. Pois para eles era estranho que um membro de um órgão de defesa da Terra estivesse ajudando um homem do espaço. E o resultado foi péssimo. Eles tentam linchar Ryo, mas Kanayama aparece confessando ser ele o alienígena e acaba alvejado pelos tiros de um policial despreparado.
E também a desinformação, os boatos que atiçam o medo e fazem com que as pessoas entrem em pânico. Todos ostracizam Ryo, mas sem checar as informações, como fez Go ao investigar a vida do menino e constatar que ele era humano e não alienígena. A morte de Kanayama também foi devido a essa desinformação, sendo que isso aconteceu só por ele ser um homem do espaço, sem questionar suas intenções, o que ele estava fazendo na Terra e nem se importavam se ele era pacífico ou não.
Kanayama, o Alien Mates, não era hostil e a bem da verdade, o que ele fez não era muito diferente do Ultraseven: veio para um trabalho cartográfico e ao chegar na Terra, salvou um menino de um monstro usando poderes psíquicos, para então assumir uma forma e um nome humanos. A grande diferença é que em sua forma natural, o Alien Mates tem uma forma que parece feia e assustadora para os padrões humanos. E por não ser gigante, ninguém viu suas ações para considerar que na verdade ele poderia ser um dos heróis.
O Desejo de Shozo Uehara
Shozo Uehara foi um grande roteirista, que participou da criação das maiores franquias de Super Heróis de Tokusatsu. Escreveu histórias que divertiam as crianças, mas também traziam críticas sociais.
Desde o começo de sua carreira Uehara queria falar de temas como a poluição e a destruição ambiental. Tanto que em seu primeiro roteiro em Ultra Q originalmente apareceria um monstro que se alimentava de dejetos da exploração petrolífera. Mas a ideia teve forte oposição, já que a empresa de combustíveis que ia fornecer a locação se recusou depois de saber do teor da história. Uehara não teve outra escolha a não ser mudar o roteiro para o de uma invasão alienígena, mas ainda assim com um final ambíguo e perturbador.
E ele pôde incluir esse aspecto neste episódio, sendo que o Alien Mates ficou enfraquecido devido ao ar poluído do planeta Terra, o que fez com que ele não conseguisse desenterrar sua nave. Um elemento semelhante foi usado em Spectreman, da mesma época, e que tratava desse tema de forma mais extensiva. Nos episódios 44 a 45 figura um agente da Lei espacial, o Alien Pal que se debilita pela mesma razão. Coincidentemente, "Pal" e "Mates" são palavras em inglês que significam "amigo".
Outro tema que Uehara queria tratar era sobre o racismo e a xenofobia. O próprio Uehara era okinawano, que na época sofria forte discriminação por parte dos japoneses. O menino Ryo seria um Ainu, um povo que habita o norte do Japão, no que agora é a província de Hokkaido. Eles viveriam na mesma situação dos okinawanos, como um povo cujas terras foram tomadas pelos japoneses, que os segregavam. E "Kanayama", o nome que o Alien Mates assumiu em sua forma humana, seria bastante usado por coreanos que moravam no Japão.
No roteiro original Kanayama diria que até ficar debilitado, trabalhava em uma fábrica em Keihin (área que compreende Tóquio e Yokohama). Vários coreanos passaram a habitar essa região e trabalhavam na zona industrial desde o começo do século XX. Mas em 1923 houve o grande terremoto de Kanto, que gerou um grande caos e nisso começaram a surgir boatos de que os coreanos estavam fazendo tumulto, cometendo vários crimes como roubos, incêndios e assassinatos. E também que estariam envenenando os poços, o que fez com que a população e até órgãos oficiais se movimentassem para criar grupos de vigilância e milícias para conter essa "ameaça".
Isso resultou no linchamento de várias pessoas, não só os coreanos como também chineses no que mais tarde ficou conhecido como o Massacre de Kanto. Japoneses também foram mortos, suspeitos de serem estrangeiros por falarem um dialeto diferente ou não conseguirem pronunciar certas sílabas devido a deficiências fonoaudiológicas, como aconteceu no Incidente da Vila Fukuda, retratado em um filme em 2023. Os boatos foram desmentidos, mas o estrago já havia sido feito.
Esse Massacre foi uma das bases que Uehara usou para escrever este episódio ao ver o que pode fazer uma multidão enfurecida, movida somente por boatos, pois como okinawano, ele sentia que também estaria sujeito a isso já que sua terra natal não era parte do Japão na época e sua posse só seria entregue a esse país no ano seguinte, em 1972.
Um Diretor Promissor
O episódio foi dirigido por Shohei Tojo, sendo que este foi seu primeiro trabalho nas séries Ultra nessa função. Ele usou ângulos de câmera bem ousados em algumas cenas, como quando Ryo foi enterrado até o pescoço. Enquanto Go estava falando com os delinquentes, a câmera focava na cabeça enlameada de Ryo e borrando o fundo, como que para enfatizar o sofrimento do menino.
O episódio foi dirigido por Shohei Tojo, sendo que este foi seu primeiro trabalho nas séries Ultra nessa função. Ele usou ângulos de câmera bem ousados em algumas cenas, como quando Ryo foi enterrado até o pescoço. Enquanto Go estava falando com os delinquentes, a câmera focava na cabeça enlameada de Ryo e borrando o fundo, como que para enfatizar o sofrimento do menino.
A música é outro elemento a se notar. Nas cenas em que Ryo aparece é tocado um tema no fundo que torna o clima ainda mais melancólico. Esse tema originalmente fazia parte da trilha sonora de Ultraseven, de Tohru Fuyuki, e foi tocada no episódio com os Nonmalt. Mas atualmente é mais lembrado por este episódio de O Regresso de Ultraman e é um arranjo triste de uma canção de ninar japonesa chamada からすの赤ちゃん (Karasu no Akachan, algo como "O Filhote de Corvo"), de Minoru Kainuma, em 1939.
Apesar de mais focado na história, na "parte dramática", as cenas com efeitos especiais também são feitas com esmero. A luta do Ultraman com o monstro Muruchi foi rodada debaixo de chuva, dando um aspecto melancólico ao invés de emocionante ou triunfante como seria habitual. A luta é sem reviravoltas, sem o Ultraman enfrentar grandes dificuldades, como se apenas estivesse fazendo seu trabalho. Tanto que o herói não se usa de movimentos chamativos e nem do Ultra Bracelete, mas tão somente do bom e velho Raio Spacium para finalizar o monstro. Também não há o "tema de vitória" do Regresso de Ultraman e é só tocado no fundo o tema da MAT.
Mesmo assim é impressionante a parte rodada em uma só tomada, em plano-sequência, de aproximadamente um minuto. Esse tipo de cena exige muito cálculo, planejamento e ensaio, já que envolve saber quando detonar as cargas explosivas. E seria quase impossível fazer novas tomadas, pois repor as maquetes e os explosivos é muito difícil e custoso. Eiichi Kikuchi, o ator que vestia o traje do Ultraman, conta que fez vários ensaios para que não houvesse erros.
Mudanças Radicais
Tojo fez várias mudanças no roteiro, que originalmente teria a participação da família Sakata, sendo que no começo haveria uma conversa com Ken, contando que quando era criança espalharam que ele seria filho de um americano só por ter conversado em inglês com um estrangeiro na rua e por ter uma saliência no nariz, atípica para um japonês. E isso daria o tema do episódio.
Na cena em que Kanayama conta sua história, ele diria apenas que assumiu esse nome e passou a trabalhar em uma fábrica em Keihin e que sua vida não ia durar muito devido à poluição do planeta. Mas Tojo alterou para algo mais poético, comparando o pouco de tempo de vida que restava de Kanayama com as folhas que caem no outono e a poluição que vêm das chaminés das fábricas e dos escapamentos dos carros com cupins que corroeram sua saúde. Tudo isso é enfatizado também por cortes mostrando fábricas e carros soltando fumaça. Tudo isso amplificou a mensagem de Uehara de preocupação ambiental, referenciando a Doença de Minamata que o roteirista quis retratar em Ultra Q, mas foi impedido.
Aparentemente, Tojo quis realmente fazer um episódio em que não houvesse salvação, que fosse árido. E para isso também cortou a participação dos outros membros do MAT (ou GAM, como queira) da cena em que Go conversa com o Capitão Ibuki na base, usando se de ângulos que mostram só os dois. Foi de sua autoria a fala de Ibuki dizendo "apesar de terem mãos para plantar flores, os japoneses podem se tornar extremamente cruéis ao pegar em lâminas".
Ao invés de falar "humanos", ele diz "japoneses", como que para que os espectadores (que seriam desses país originalmente) pudessem sentir que a mensagem é para eles mesmos, e não vissem como algo vago e distante de suas realidades. Quem não sabe pensaria que ela estava no roteiro original, considerando a origem de Uehara, mas quem criou essa fala foi Tojo, que era japonês.
Essa frase é provada na cena em que o Alien Mates é morto por uma multidão enfurecida, armada com foices e lanças de bambu improvisadas. Pensando que o menino é alienígena, eles acabam pensando ter o direito de fazer "justiça" com as próprias mãos, dominados pelo medo, pela histeria em massa. A reação deles diante da morte de Kanayama é bem real, com todos se afastando ao ver que foram longe demais, em um misto de perplexidade e de desejo de fuga da responsabilidade.
Tojo filmou essa cena com Kanayama empalado pelas lanças de bambu empunhadas pela multidão. Mas os executivos da TBS rejeitaram essa cena por ser muito violenta e por isso o diretor teve que refilmar com um policial atirando no alienígena. Mesmo assim uma cena chocante, que desta vez mostrou o que acontece quando autoridades despreparadas tentam interferir em um assunto fora de suas alçadas.
Os executivos da TBS exigiram que não só essa cena, mas o episódio fosse refeito e por isso Tojo teve que suavizar o tom. Então foram tiradas várias cenas que figuravam na prévia do episódio, como uma em que Ryo é apedrejado ao andar pela cidade e uma menina pequena foge de medo, mesmo sem ele ter feito nada.
Também para amenizar o clima desolador, foi incluída a cena em que a dona de uma padaria se recusa a vender pão para Ryo. Mas uma funcionária do estabelecimento, Yoko, vai atrás do garoto e vende um para ele. Essa cena constava no roteiro original, mas ia ser cortada por Tojo e seria Aki Sakata quem venderia o pão a Ryo ao ver que o menino não pôde conseguir um. Pegar o dinheiro seria apenas um pretexto para que ele não sentisse que tiveram dó dele, assim como foi com Yoko na versão final.
Não se sabe o porquê dessa cena não ter sido filmada exatamente como no roteiro original. A teoria mais aceita é que a atriz Rumi Sakakibara tinha uma agenda cheia na época, participando também de novelas, e não pôde encontrar um espaço. E isso culminaria na saída da atriz do programa no episódio 37.
Na parte em que Go se decepciona com a humanidade e se recusa a enfrentar Muruchi, o Capitão Ibuki viria em um jipe, com o uniforme da MAT para exortar o herói a lutar. Mas o diretor mudou a cena com o capitão disfarçado como um monge andarilho com a cabeça coberta. Isso aconteceria dentro da mente de Go, retratando seus conflitos internos entre sua vontade de abandonar os humanos e seu dever em defendê-los como membro de uma força de defesa. Esse Ibuki seria sua consciência e não o verdadeiro. Houve uma discussão e se chegou à conclusão de que Go não se convenceria se fosse realmente Ibuki simplesmente lhe dando uma ordem e assim essa mudança foi feita.
Tojo fez as alterações para que a mensagem do episódio fosse mais contundente, tudo isso com o aval de Uehara, mas isso acabou custando seus postos. O produtor Yoji Hashimoto havia permitido que Uehara escrevesse esse episódio e o defendeu diante dos executivos da TBS, dizendo que era o trabalho da vida de Uehara e sua mensagem ao mundo. Então eles aceitaram sob a condição de retirar o diretor e o roteirista do programa, que é o que foi feito.
Uehara encontrou trabalho em Silver Kamen, por indicação do produtor Hashimoto, e se reuniu com seus colegas Mamoru Sasaki e Shinichi Ichikawa. Lá, Uehara escreveu alguns episódios da série, que falava de uma família que, apesar de repelir ameaças alienígenas, não tinha a compreensão das pessoas e sempre era expulsa dos lugares onde conseguiram uma moradia sob o pretexto de que atraiam esses ataques. O roteirista voltaria a O Regresso de Ultraman para escrever o último episódio, pois havia uma regra interna de que quem escreveu o começo também deve fazer o final.
Shohei Tojo passou a trabalhar em outros projetos da Tsuburaya, como Mirrorman. e Jumborg A para então fazer um breve retorno às Séries Ultra em Ultraman Taro, Ultraman Leo e Ultraman 80. E mais tarde ingressaria na Toei, por apresentação do Diretor de Efeitos Especiais Nobuo Yajima, e trabalharia principalmente em Super Sentai, de Sun Vulcan a Ohranger (com algumas exceções), em Metal Hero (O Fantástico Jaspion, Esquadrão Especial Winspector e B-Fighter Kabuto) e ainda em Bicrosser e Machine Man.
O Pior Inimigo
Neste episódio, Hideki Go, o Regresso de Ultraman, enfrentou seu pior inimigo. Aquilo que não é um monstro ou um alienígena ou um ser subterrâneo, subaquático ou de outra dimensão, mas sim algo que se esconde no coração dos humanos: o Medo do outro, que engloba o Racismo e a Xenofobia. O preconceito que temos com quem é diferente, o temor paranoico de que o outro vá fazer algo contra nós. Um tema que é mostrado também nas séries Ultra mais recentes como Ultraman Taiga, em que se falou de seres alienígenas que viviam na Terra e mostrou a reação dos terráqueos ao saber disso, exigindo que eles fossem embora.
Esse medo, essa paranoia é o que faz com que as pessoas se dividam e consequentemente fiquem mais frágeis. Isso gera a quebra das relações de confiança que é o que faz com que civilizações se destruam, como bem observou o Alien Metron em Ultraseven. Este é um tema que permeia várias obras, não só as séries Ultra. Por exemplo, em Devilman, de Go Nagai, os Demônios conseguiram destruir a humanidade plantando a desconfiança e o medo, criando esse clima de paranoia.
Também aparece em Kamen Rider BLACK SUN, e assim como Minami, um dos protagonistas dessa série, o Regresso de Ultraman até derrotou o monstro, mas não triunfou, não venceu o verdadeiro inimigo. E o fato de BLACK SUN existir é a prova de que esse Mal ainda não foi vencido mesmo depois de tantos anos. Outro ponto em comum é que a criança que o herói deveria proteger acaba decepcionada, revoltada com a humanidade e, no caso de Ryo, pretende dar adeus ao planeta Terra, que já não iria durar muito devido à poluição e ficaria pior ainda com os humanos do jeito que eram.
Tão forte é a mensagem do episódio que ele foi usado por alguns professores no Japão em aulas de Educação Moral. Havia uma exibição para depois perguntar aos alunos o que sentiram e abrir mesas de discussão, incentivando o debate para que eles pensassem por si mesmos. Questionar por que o alienígena teve de ser morto. Quem estava com a razão. O que poderia ter sido feito.
E até hoje o episódio desagrada alguns fãs japoneses de Tokusatsu, que falam dele com desdém. Chegam a dizer que passam mal a ponto de dar vontade de vomitar ao saber que foi usado em aulas de Educação Moral, acusando os professores de doutrinação. Assim, toda vez que o episódio vem a tona, tentam desmerecê-lo, diminuí-lo a todo custo, chamando-o de "anti-japonês" e comentam que apenas a cena em plano-sequência é o que se salva.
Mesmo assim, este episódio tem o grande mérito de mostrar problemas que afligem o mundo inclusive nos dias de hoje. Não só o Medo do outro que gera o Racismo e a Xenofobia, como o perigo das pessoas se deixarem levar pela desinformação, acreditando cegamente em boatos sem checar os fatos. E com isso correndo o risco de repetir uma história que aconteceu há mais de cem anos, com o Massacre de Kanto, que por sua vez repete os erros da Europa na Idade Média, em que os judeus eram acusados de envenenar poços, e as mulheres de praticar bruxaria.
O mais importante, como disse Shozo Uehara, é pensar com as próprias cabeças e se levantar com os próprios pés. Não ir com a multidão, se deixando levar pela pressão popular por ser "o que todos fazem", e sempre checar os fatos para saber se são verdade. Como Go fez ao investigar sobre Ryo confirmando que ele era humano, e ao conversar Kanayama para saber de suas intenções e perceber que o melhor a fazer era ajudá-lo a voltar ao seu planeta, mesmo sendo agredido pela multidão.
Go foi o que Shozo Uehara definiu como herói: aquele que diz "não" quando é necessário, diante das injustiças. Que é o aliado das crianças oprimidas, aproximando seu campo de visão para o delas, acreditando em suas palavras. E altamente humano ao se revoltar e ficar em dúvida se deve proteger pessoas que demonstraram um comportamento reprovável.
O falecido Jiro Dan cita este como um dos episódios mais marcantes do seriado. Talvez por ser mestiço, filho de pai americano, ele tivesse algo a pensar disso. E em uma mesa redonda com os atores que interpretaram os Irmãos Ultra, ele disse que as Séries Ultra continuam na mente dos fãs até hoje por terem algo que as crianças talvez não entendessem na hora, porém ainda assim as intrigava. Mas depois de crescerem e reassistirem, perceberiam que havia uma mensagem, algo profundo e finalmente entenderiam.
Este episódio é a grande prova de suas palavras.

Saudações meu caro Usys, bom que lembra que estamos por aqui.
ResponderExcluirTô devendo assistir " O Regresso de Ultraman" pra fechar a trinca inicial da franquia, mesmo assim, sei da fama e do impacto presente, como foi com este episódio. Certeza que deste episódio e de outros, um dos fatores mais relevantes é como as pessoas enxergam o desconhecido, dos que não são parte da população ou são, mas são menosprezadas por diferentes razões.
A análise do episódio nos faz refletir que mesmo civilizados, escondemos nossos medos e anseios dos que são diferentes de nós. E se não conseguimos compreender o outro, criamos barreiras e preconceitos, a tal ponto que podemos machucar os outros. Vi muito disto em "Ultraman Taiga" que tratou muito da relação entre humanos e alienígenas, como em outros episódios da franquia. Bem, é isso, se cuide e nos vemos por aí. Até a próxima!!!
Obrigado, Escritora.
ExcluirDesculpe não ter feito muitas matérias, mas esses últimos tempos tenho estado bem ocupado e bem desanimado. Esta é mais um dos rascunhos que tirei, aproveitando que o episódio foi exibido no canal da Tsuburaya. E recomendo ver enquanto ainda está lá. Felizmente é uma história solta do seriado e nem precisa saber muito dele para poder assistir. Com isso dá para entender alguns episódios do Mebius.
E também para a gente se questionar sobre as barreiras e preconceitos que nós mesmos criamos às vezes. Duro é saber que mesmo depois de tantos anos ainda cometemos os mesmos erros...
Salve, Usys! Seus textos fazem falta!
ResponderExcluirEsse é um dos episódios que aprendi a gostar depois de adulto, pois quando criança não tinha maturidade para compreender sua profundidade. É uma obra de nível cinematográfico, e permanece atual. Ela também esconde um perigo (não por culpa do episódio, claro), o de se relativizar a violência, vandalismo e crime praticados por imigrantes em vários países, um problema que agora atinge o Japão e que está só revelando opostos perigosos: a xenofobia e o multiculturalismo (que busca destruir valores culturais milenares por agendas político-religiosas).
Mas, voltando ao episódio: uma obra de arte, onde a feiúra humana é mostrada com uma direção habilidosa e um texto preciso. Isso é tokusatsu em sua melhor forma, antes dos brinquedos se tornarem mais importantes que todo o resto.
Abraço!
Obrigado, Nagado.
ExcluirTenho estado bem ocupado esses dias com responsabilidades na família, trabalho e problemas de saúde. Isso sem falar na desmotivação ao constatar que não sou mais necessário no ramo.
Na minha visão a introdução de novos elementos culturais sempre é uma coisa bem vinda. Como o Budismo, assim como elementos ocidentais na Era Meiji. Mas sempre sendo algo que seja bom para o povo e não com o intento de destruir a cultura local, uma coisa invasiva, destrutiva. Shozo Uehara demonstrava bastante preocupação nesse sentido, já que temia que a língua e a cultura de Okinawa se acabassem devido à ocupação pelo Japão.
E existe realmente o risco de se ser "bonzinho" demais e aceitar tudo, como no episódio com o Alien Zeran, que é um bom contraponto com este. Dá o que pensar o fato da máscara do Alien Mates ter sido um reaproveitamento da do Alien Zeran.
Mesmo assim, séries mais novas mostraram respostas boas, como Zenkaiger, King-Ohger e Star Twinkle Precure. Que falam sobre o que é a verdadeira Diversidade, que é um pouco diferente do que vejo por aí. De aceitar o que acha bom e deixar de lado o que acha ruim, sem precisar se misturar forçosamente. Saber que exatamente por todos terem aparências e modos de pensar diferentes é que o mundo é mais divertido.
Oi Usys!
ResponderExcluirQue saudade que eu tava de um texto seu, meu caro!
Não some não chapa. Suas análises são de longe as mais profundas que temos por aqui, principalmente quando o assunto é Ultraman, bastidores, e as pessoas envolvidas na criação das séries e episódios marcantes.
Estou aliás me inspirando muito nas suas matérias para desenvolver uma thread especial no twitter/X comemorando os 60 anos da franquia!
Sobre o episódio, que marco! Até hoje me lembro das "primeiras" vezes que assisti.
Primeiro como criança. E depois já com consciência do que estava assistindo, durante a faculdade. Independe da vez, lembro-me de ficar extremamente revoltado e horrorizado com a cena do linchamento, mas só depois fui de fato entender o motivo do Ultraman hesitar em lutar contra o Muruchi, mensagem muito forte.
Não sabia da grande influência que o Tojo teve na história do episódio, mas agora fico agradecido pela genialidade. E fico embasbacado com o preço do episódio ter sido a "demissão" do Uehara. Chega a ser irônico como as melhores coisas da Era Showa, os episódios e ideias mais refinadas, que continuam se destacando por meio século após serem feitos, foram negligenciados quando criados.
Fico muito feliz de ver que homens como Uehara, Tojo, Ichikawa e outros arriscaram tudo que tinham para que a pura arte pudesse ser produzida.
Bravo.
Obrigado, Joneus!
ExcluirInfelizmente este é mais uma das matérias que estavam no "fundo do baú" e resolvi retomar porque essa poderia ser a última oportunidade de falar deste episódio. Então não sei se vou poder fazer mais. E justo agora, nos 60 anos de Ultraman...
Também vi quando era criança e chorei ao assistir. O problema é que era em uma época em que menino não podia chorar, porque senão pareceria fraco e então fizeram chacota de mim por isso. Entendia apenas que não se podia fazer bullying com os outros, mas só depois me dei conta de que um dos temas era o "medo do outro".
Mas escreve, sim. Para mostrar que Ultraman ainda rende assunto e para passar a mensagem das séries. É importante isso, visto sua longevidade. E a fascinação que continua exercendo sobre todos nós.
Além de Uehara, Tojo e Ichikawa é bom falar de Mamoru Sasaki, que também escrevia sobre temas polêmicos e o próprio Uehara considerava como um gênio. Sasaki tinha uma boa parceria com o Akio Jissouji, com quem criou vários episódios marcantes, inclusive o episódio 12 de Ultraseven, que curiosamente acabou virando "Document Forbidden", só que na vida real.