domingo, 17 de maio de 2020

O Contato com o Desconhecido - Ultraman Max Ep. 15

Saudações.

A Tsuburaya Productions lançou a campanha Stay at Home with Ultraman, exibindo episódios selecionados de suas obras, liberados semanalmente. Desta vez foi apresentado o episódio 15 de Ultraman Max, intitulado "Milagre do Terceiro Planeta" com a mensagem de "Conecte-se (ao coração) de outras pessoas". Abaixo segue um resumo e impressões.


Obs.: contém revelações sobre os rumos da trama.


A história começa com a oficial Mizuki, do time de defesa da Terra DASH, acompanhando uma menina cega, Akko, que vai fazer uma operação para recuperar a visão. Mas o procedimento falha e a menina nunca mais poderá ver. Akko é órfã de pai e mãe, e tinha o sonho de ser desenhista, mas resolve mudar para a música e aprender a tocar flautim, demonstrando uma força de espírito que inspira Mizuki.


Nisso, no dia do recital de Akko, surge um gigantesco objeto do espaço, que cai na Terra. O formato é estranho, de forma ovalada, lembrando um gigantesco marshmallow ou um cogumelo.


É ordenado que o tal objeto seja incinerado, mas isso desencadeia uma estranha reação que faz com que ele se torne um monstro. Trata-se de If, a Forma de Vida Perfeita. A DASH contra-ataca, mas a entidade tem a capacidade de replicar qualquer ataque que sofra e revidar com a mesma intensidade. O ser avança para o local onde Akko iria se apresentar e Mizuki tenta impedir.


Kaito se torna o Ultraman Max e investe com o Maxium Cannon, que aparentemente consegue destruir o monstro. Mas os pedaços se reúnem e a entidade se reintegra, evoluindo para outra forma e replicando o Maxium Cannon, além de todos os ataques de Max, que não tem outra alternativa a não ser se retirar, pois sua energia estava no fim.


If destrói o prédio em que ocorreria o recital de Akko e depois transforma a cidade inteira em um mar de chamas e escombros até parar e dormir.


Akko foge do orfanato e toca o flautim para If. Para a surpresa de todos, a entidade começa a mudar, de um monstro para um ser angelical composto de vários instrumentos e que também toca a mesma música da menina.


Max então silenciosamente pede a Mizuki e Akko que entrem no carro e conduzem If para o espaço para que possa ir em paz.



Contato com o Desconhecido

If é como se fosse uma metáfora do contato das pessoas com algo que elas desconhecem e não compreendem. Isso dá muito o que pensar. Como nos comportaríamos diante dessa situação? Como lidamos com algo que não conhecemos ou compreendemos? Atacamos, movidos pelo medo? Ou tentamos nos comunicar, abrindo o coração?


A primeira reação é pensar que se trata de uma ameaça e nisso são usadas as armas, um produto da tecnologia humana feita para a destruição, e a entidade então revida na mesma moeda. Nisso uma cidade inteira é totalmente devastada. A ironia é que isso tudo aconteceu só porque se tentou destruir a entidade desconhecida. Se ela tivesse sido deixada em paz, é provável que não teria feito nada.

O próprio protagonista, Kaito, o Ultraman Max, também acaba "dando munição" à entidade. Igualmente impotente fica o pessoal da DASH, que mesmo sem ter o que fazer, não consegue ficar parado e parte ao menos para observar, mesmo com as ordens do Capitão de ficar na base para repouso. 

Outra grande ironia é ver If usando o Maxium Cannon para destruir a cidade.
Até a pose dos braços é igual, mas ao contrário.
A Caixa de Pandora.

Mas depois, If tem contato com um produto da cultura humana: a Música. Algo que serve para tranquilizar e que começou como um protesto de Akko diante da devastação sem sentido, mas serviu para harmonizar os dois. E nessa a entidade replica o que lhe é dado, se tornando pacífica.



No fim, o planeta não foi salvo pelas armas da DASH ou pela força do Ultraman Max, mas pura e simplesmente pela música de uma menina que, mesmo perdendo a visão, procurou por outro meio, outro sonho para ser feliz. E quando tudo parecia perdido, encarou a entidade sozinha, com amor e candura ao invés de violência, operando o "Milagre do Terceiro Planeta".

E ao presenciar If indo embora, os membros da DASH chegam a uma conclusão:




Simbolismos

O episódio tem excelentes composições de cena, feitas pelo diretor Takashi Miike. No começo é mostrada a Terra sendo coberta pela sombra do anoitecer, como que simbolizando as tragédias que estariam por vir: a falha na operação de Akko e o surgimento de If. E também existem vários elementos representando o fracasso no procedimento, como o apagar repentino da iluminação da mesa operatória.

O início de uma longa noite.

A cidade devastada tem um ar depressivo, apocalíptico. Figuram várias cruzes, como se fossem túmulos em chamas demonstrando a dimensão do desastre. A cidade também é mostrada do alto, como se tivesse sido bombardeada. Ver Akko andando entre as ruínas da cidade sem poder enxergar é angustiante, o que aumenta a sensação de depressão. Todas essas imagens são facilmente associáveis a uma guerra.


Akko foi interpretada pela atriz mirim Mao Sasaki, que apesar da pouca idade, conseguiu transmitir bem a tristeza de personagem, cega, perdida no meio da destruição. Outra cena marcante é quando ela se desespera, se escondendo debaixo da escrivaninha de seu quarto, dizendo a Mizuki que ninguém pôde fazer nada.


Igual habilidade interpretativa tem Hitomi Hasebe, no papel da Oficial Mizuki, procurando desesperadamente por Akko. Ela mostra que está preocupada com a menina, que precisa encontrá-la, com uma sensação forte de urgência. Hasebe mais tarde interpretaria Rumina, esposa de Leito Igaguri, o hospedeiro do Ultraman Zero em Ultraman Geed.

Expressão de angústia em uma busca desesperada.

Outra composição interessante é quando Akko se depara com If. A cena lembra uma ilustração de um livro infantil, com o monstro dormindo nas ruínas do lugar onde seria o recital, tendo a lua no fundo. E quando a menina começa a tocar o flautim, surge uma estrela perto da lua, como se indicasse o surgimento de uma esperança.


Durante o recital de Akko, Mizuki chega para salvar a menina e aponta sua arma para If. Essa cena também tem simbolismos ao confrontar o uso de uma arma com o do flautim da menina. Mas ao ver o resultado, Mizuki olha para a arma, como que percebendo que essa não era a solução nessa hora e se questionando sobre o que ela estava prestes a fazer.


Na apoteose, quando If se torna um ser pacífico, com detalhes em dourado, as partes de seu corpo que eram armas vão se convertendo em instrumentos, como a espada em seu braço que se torna um instrumento de sopro. Uma cena onírica, fantasiosa, cheia de significados, com a canção tocada por Akko e por If, que é Tristesse (Estudo Opus 10, Nº 3), de Frédéric Chopin. Segundo o músico, "a melodia mais bela que ele pôde compor". E é assim que a menina e a entidade se comunicam e finalmente seus corações se conectam. Uma boa metáfora antiguerra.


A cena final é com o sol surgindo por detrás da Terra. Isso cria uma oposição á primeira cena do episódio, com o planeta em uma perspectiva oposta. Como que mostrando que há esperança e o mundo um dia terá paz ao mudar sua visão.

Um novo alvorecer.


O Monstro mais poderoso de todos?

If não fala e nem tem expressões, e por isso não é possível saber o que pensa (ou se pensa) e o único meio de se comunicar com esse ser foi com a música. E na verdade, não se sabe o que é If e nem de onde veio.

A entidade pode se tornar uma ameaça ou algo apaziguador, de acordo com  a maneira que tratamos dela. Daí uma interpretação possível de seu nome, que significa "se" em inglês. "Se" mostrarmos hostilidade, If se torna um monstro. "Se" abrirmos nossos corações, o ser assume uma forma angelical. Ou seja, é algo que possui muitas possibilidades, podendo ser benéfico ou maléfico dependendo de como agimos.

Outra interpretação é 畏怖 (ifu), uma das palavras em japonês que significariam "medo", algumas vezes temência diante algo superior. Existe um provérbio no Japão que diz 触らぬ神に祟りなし (sawaranu Kami ni Tatari nashi), algo como "se não mexer com a divindade, não há castigo" ou que existem coisas nas quais não se pode mexer, o que é apropriado.

If também figura no romance literário Ultraman F, de Taizo Kobayashi. No livro, Mitsuhiro Ide, da Patrulha Científica descobriria que a capacidade de regeneração de If teria um limite e esse seria seu ponto fraco. Em F também, a entidade é absorvida pelo Hyper Zetton e faz com que o dinossauro espacial fique mais forte. Isso deu a entender que a entidade poderia ser derrotada afinal.

Kobayashi se retratou mais tarde ao afirmar que aquilo não significou a destruição de If, mas sim que as células apenas demorariam certo tempo para reconstituir a criatura, porém não foi possível colocar assim devido ao número de páginas que foi disponibilizado para se escrever a história. Mas em uma edição posterior de F, a parte que fala que a capacidade de regeneração de If teria limites foi trocada por essa explicação.

A edição que tenho é a que não foi revisada.

Devido às suas características de absorver e replicar ataques e poderes, If é sempre cotado como um dos monstros mais poderosos das séries Ultra. Mas creio que esse tipo de afirmação não faça sentido, pois If não é exatamente um "monstro" e nem mesmo um "inimigo", dependendo de como lidamos.

Como dito acima, considero If como algo abstrato, uma questão jogada aos seres humanos em que o grande erro é o de vê-lo como algo hostil e se pensar em derrotá-lo. E acho melhor assim, para que tenha um aspecto divino, misterioso, fantástico.


Fantasia Cósmica

Esse é um dos meus episódios favoritos nas séries Ultra, que tem vários significados e dá muito o que pensar. O roteiro, escrito por Masaru Nakamura, no fundo é simples, mas as composições de cenas fazem com que a história seja bem contada nas mãos da equipe, liderada pelo diretor Miike, e pelo elenco, especialmente Mao Sasaki e Hitomi Hasebe.

O resultado é uma pequena fantasia cósmica de aproximadamente 24 minutos, uma alegoria que fala do Contato com o Desconhecido, da importância de se conhecer o outro, que pode ser estranho a princípio, e da Antiguerra, ao mostrar a destruição que pode ocorrer ao se apelar para a violência, e inadvertidamente destruir sonhos de quem não tinha nada a ver com o conflito, incluindo crianças. E justo uma dessas crianças, a pequena Akko, é por si só uma grande lição de vida.


Uma excelente demonstração de que Ultraman é muito mais do que "um herói gigante que derrota monstros malvados". De fato, este episódio nega completamente essa definição simplista.




Final Alternativo

Uma curiosidade é que existe um final alternativo para esse episódio no DVD da série. Nele, na cena final em que Max conduziria If para o espaço, o carro escaparia dos dedos do herói acidentalmente e a música da entidade se tornaria um urro da forma monstro. Felizmente não foi esse o final que foi ao ar.

6 comentários:

  1. Assistia Ultraman Max no CR geralmente nas manhãs de sábado.Os episódios dessa série tinham
    uma tendência a alternar Sci Fi séria com situações malucas(em um mesmo capitulo havia
    uma paródia de Harry Potter e uma batalha dramática com Baltan).Pena que desde Ultraseven X
    ninguém está interessado em dublar algo da Tsuburaya,exceto o anime recente.

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    1. Obrigado, anderson!

      Ultraman Max foi feito sob o conceito de resgatar o espírito de Ultraman, dando liberdade para cada diretor e com isso teve uma boa diversidade de histórias. Essa do Baltan, por exemplo, foi escrita e dirigida pelo Toshihiro Iijima, o próprio criador do Alien Baltan e do Raio Spacium. E com isso ele realizou um sonho de décadas.

      Material dublado da Tsuburaya... Não dá para dizer "nunca", mas vamos esperar, agora que estão avançando internacionalmente. Talvez se a Netflix se interessar pelas séries mais recentes como Taiga e Z...

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  2. Esse episódio de Max é realmente magnífico, desde as soluções de direção, das atuações ao roteiro que, como você escreveu, é simples, mas vai direto ao ponto. Mais uma adição à longa tradição da Tsuburaya de trazer temas filosóficos em episódios de suas séries.

    Recentemente terminei de ver a série do Max, e é uma experiência muito interessante. Sem dúvida a série Ultra com mais jeito de produção da era Showa feita dentro da era Heisei - talvez até mais do que o próprio Neos.

    O fato de não ter um grane arco, com cada episódio sendo completamente auto-contido, a ausência de formas extras... tudo isso dá a Max um jeito de série dos anos 60 - o que é reforçado com a presença de tantos veteranos, tanto na frente (conseguir reunir o trio de Ultra Q em um episódio foi genial), como atrás das câmeras (muitos fazendo aqui seu último trabalho para as séries Ultra, como o Shozo Uehara, o Toshihiro Iijima e o Akio Jissoji - que inclusive conseguiu criar uma continuação para o seu clássico "A Cidade Ameaçada").

    Sem dúvida uma série que merecia maior reconhecimento.

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    1. Obrigado, Ricardo!

      Max apareceu em um momento altamente desfavorável, mas é muito boa por essa proposta de retorno às diretrizes das primeiras séries. E foi legal ver como os diretores veteranos usaram as técnicas e tecnologias mais modernas. Tudo isso mantendo a intenção de se passar uma mensagem. Essa do Metron foi muito bem sacada, com uma atualização em alguns elementos, mas mantendo a crítica social.

      Reunir o pessoal de Ultra Q foi um milagre, mas também achei incrível juntar todo o elenco que foi a Patrulha Científica, só faltando o falecido Akiji Kobayashi. Quando vi essa cena dei muita risada.

      Max é uma daquelas séries que precisavam ser reavaliadas pois tem episódios geniais. Quem sabe não exibem no Canal Oficial, já que este ano se comemoram os 15 anos da série? Queria Cosmos, que vi pouca coisa, mas essa é uma boa oportunidade de mostrar o Max.

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    2. Quando tiver oportunidade de ver Cosmos recomendo fortemente.
      Ela já tem uma outra estrutura narrativa, com uma ameaça central, mas ainda apresenta ótimos episódios isolados. Destaque para o emocionante episódio 57, A Porta da Neve, que fala a respeito de lembranças de forma sublime, em uma das últimas aparições do Hideyo Amamoto.

      Para completar, Cosmos ainda tem um elenco muito bom e carismático. Definitivamente uma das minhas séries Ultra favoritas.

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    3. Ah, Cosmos é aquela série que eu mais queria ver, em vários sentidos. Gostei muito do conceito de priorizar a salvação do monstro antes da destruição. E só de ter o Daisuke Shima já é um bom motivo para ver.

      Na verdade vi uns poucos capítulos e um dos filmes e já gostei! Espero que exibam um dia.

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